domingo, 29 de julho de 2012

Ponto


Vi o tempo passar,
limpando a poeira dos ponteiros
Respirei algumas vezes,
antes de assinar no destino.

Morri tantas vezes
só de sonhar
Mas não me arrependo
Disto.

(...)

Não tinha casa para guardar
o passado.
Nem sei se tive passado.
Mas tive tantos futuros
que hoje estou aqui.

O calor, o escuro, as vozes.
Parece apenas mais
uma noite de insônia.

O inferno foi existir.
O fogo já incendiou
meu peito várias vezes.
Meu castigo foi acordar,
fiz isso todas as manhãs.

E hoje estou aqui.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Para sempre.


     Eu realmente espero que esteja fazendo a coisa certa, mas é tudo tão impreciso. Aqui e agora nunca foram tão distantes. Não guardo rancor, nem seu rosto, apenas seu nome. No entanto, acho que não deveria começar pelo fim. Provavelmente não sairá da maneira que quero, outra imprecisão é se essas palavras atingirão suas mãos.
     Já faz algum tempo que parti, minha cabeça doía muito. Noites de espera, crises, enfim, aquele mesmo teatro que são descritos em romances tristes, mas o pior de tudo é engolir meu orgulho, aquele que você aturou por alguns anos, pra dizer que não foi tão ruim. Foi em vão. Apenas meu rosto sentia aquela dor, Eu não sentia, pelo menos não da forma que imaginei que fosse. Era qualquer coisa, exceto um ser humano, afinal é assim que manda o figurino não é mesmo? Sofrimento, amor e dor. Pode ter sido uma fração disso no começo, mas depois a realidade me confortou. Você já estava longe há alguns dias, se me recordo bem se despediu da maneira mais delicada possível e eu lhe confrontei com facas. Não pedi perdão, mas sei que não adiantaria. Você iria embora do mesmo jeito, não estava aqui, acho que nunca esteve. Você se esforçou, é verdade. Com raiva via a maneira que você se arrastava para voltar pra casa. Eu também me esforçei, joguei pela janela parte de mim para te dar espaço. Gritei tantas vezes, você me ouviu todas elas, mas nunca viu nenhuma. Não te culpo, não estou me colocando como vítima. Ambos somos vítimas e culpados. Não foi uma tortura, não foram anos de prazer. Não sei se foi algo importante, mas construiu nosso presente passado. Nosso, e de mais ninguém. Cheguei aqui hoje, encontrei a casa intacta, com um pouco de poeira que suspeito que seja da minha mente, mas não muda o fato que estava abandonada. Mas fugia dos esteriótipos. Não tinha teias, não tinha lembranças ruins, pelo contrário, parecia viva, aliviada eu diria. Me senti bem ao entrar e ver apenas ela. Foi como recordar de um sonho ingênuo, mas a sensação era boa. Encontrei o outro bilhete que deixei, parecia amarelado e o grafite do lápis que usei para escrevê-lo estava desbotado. Não passou tanto tempo assim, novamente acho que era minha alma que estava velha, abandonada. Mas você a libertou, nos reencontramos. E em troca te devolvo a si mesmo. Não escrevo isso pra você, já que nem sei se lerá, mas para mim. Estou sendo sincera comigo mesma ao fantasiar alguém me escute, quando na verdade esse alguém sou eu. Nossos caminhos não se cruzarão mais. Não vamos nos reencontrar e ignorar um passado, nem um ao outro. Vamos manter o que foi, o que sempre será nesta casa. Nossa casa. Eu te amei, sabe disto. Você me amou, mas eu não preenchi seu vazio, nem você ao meu, mas nos confortamos da melhor maneira possível. Então é isso. Não te desejarei sorte, isso implicaria na minha participação indireta na sua vida, mas não quer dizer que não te quero bem. Foi difícil, cada roupa que tirei de nossa cômoda foi um tapa, elas tinham medo de não ter mais onde serem guardadas. Retomo ao princípio quando digo que estou bem e sei que você está. Conservaremos o que foi. Não levarei fotos, me contento com lembranças que não reviverei, isso as tornam um tanto quanto incertas, daqui à alguns anos posso não saber se realmente aconteceu, mas é assim que quero, pura, ingênua, como foi quando começou.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Talvez seja.

Querer que o posso talvez seja.
Talvez poder querer ser algo.
Se algo pudesse talvez querer
Ou apenas talvez quisesse
ser algo.
Quando posso querer ser talvez,
não ser talvez o então querer
Poderia apenas ser o que quero
se talvez pudesse.
Talvez já fosse o que talvez
não pudesse querer.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Pôr-do-sol

Mas já não há por quem esperar.
Este vazio sem nome, vestígio da sobrevivência
poderia infectar antigos olhos.
Hoje acordei e tropecei em meus passos
Exclamaram o que seria um nome.
Abandonaria a sorte se fosse o caso.
O talvez maldito que corre entre as pedras
da estrada já não incomoda.
O fogo não arde nada.
O silêncio vira fato.
E mesmo sabendo disso,
ainda volto.

Instante

Às vezes o dizer não tem eco nos cantos
e se tivesse forças para chegar onde quer
Mas não saberia pra onde ir.
E talvez por estar aqui esteja tão longe.
Mas ainda posso respirar no escuro.
E temer seria tolice.

domingo, 8 de julho de 2012

Pulsos.


      Estava sentada em frente ao papel há apenas alguns minutos, mas já o via amarelado. Talvez pela luz do pôr-do-sol em sua janela. Segurava a caneta por um momento, esfregando-a na tentativa de aquecer sua mão, e depois a apoiava sobre a mesa. Repetia sempre os mesmos movimentos, fazendo pequenas pausas para respirar. Seu cabelo já tinha secado, mas sua blusa ainda estava úmida provocando mais um peso em suas costas. Parecia eterno.
      Em suas pausas, às vezes, permitia-se perder em um instante, fundindo seu rosto ao vazio de seu peito, evitando a si mesma. As cortinas dançavam o fim da tarde em sua janela permitindo a entrada de um vento frio em seus olhos esquecidos.
      Sentiu sua mão arder, o movimento de pegar e largar a caneta queimara sua pele. Com raiva, respirou fundo e apoiou brutalmente a caneta sobre a mesa, junto com sua testa. Rasgou a madeira com suas unhas, e pequenas lasquinhas perfuraram a ponta dos seus dedos. As gotículas de sangue marcaram o título do que viria a ser o papel.
      Permitiu-se morrer um pouco enquanto unia forças para fazer nada. Abriu seus olhos no pesadelo de sempre. Mordeu os lábios, e escreveu um parágrafo. Encarou-o por um instante. Estava de acordo. Apoiou a ponta da caneta novamente no papel, mas a tinta escapara de seu sangue. Sentiu o mesmo vazio sem nome.
     Olhou para frente, viu um vaso em sua mesa. Uma única flor, já seca. Na tentativa de acariciá-la, uma de suas folhas soltou-se. Pegou-a, fitou-a por um momento. Era repulsiva, sem cor, textura amarga, traços delicados, e tinha a audácia de arrancar-lhe compaixão. Em um único movimento, fechou sua mão. Sentiu os estalos do cadáver se quebrando. Jogou os pedaços pela janela, e viu cada fragmento criar asas.
      Massageou seu pescoço, atritando cada cicatriz com seu cansaço. Correu assustada, rumo à qualquer lugar. Sentou na margem. Fechou os olhos.Engoliu seus gritos. Abraçou seus joelhos que abraçavam seu rosto. Estava segura. Os carros não a viam, as luzes não chamavam seu nome. Ninguém esteve com ela, portanto, não sentia falta de ninguém. Abriu os olhos. Estava sentada em frente ao papel.

terça-feira, 3 de julho de 2012

O aviso.

      Vestia-se com o monótono. Sua respiração era densa, porém silenciosa.Seus sapatos em contato com o chão provocavam pequenos estalos, os prefácios do fim. Não exibia suas mãos, mantia-as cruzadas em suas costas .O barulho das chaves em seu cinto sustentava a dúvida.Caminhava de um lado pro outro. Seus lábios rachados mantiam-se intactos. Não dirigia seus olhos a nenhuma delas.
      Quinze moças de pele branca e lábios rubros, todas sem lembranças para definir-lhes os rostos. O silêncio ecoava no salão, enquanto olhares sem objetivo tremiam enfileirados. Todas em pé sobre o extenso tanque. O medo entre as pernas, a força em seus pés. Todas de vermelho e cabelos curtos. As mãos coladas ao corpo que sustentavam joelhos finos.
      Uma leve acelerada nos passos ardiam os ouvidos das vítimas. O eco afundava as paredes da sala, ondulando barreiras. Sem portas ou janelas, mas iluminado.
      Passou a encará-las conforme andava. Observando os detalhes mais profundos e inauditos. Eram jovens. Muito jovens. Mas não haviam segundos em seus corações. Não haviam mais.
     -Fechem os olhos. - Ordenou sem exclamar.
     Obedeceram. E gritaram sem voz.
     Voltou a caminhar. O canto das chaves agora tinha ênfase sobre o ambiente. O sangue que escorreu no chão agora cobria os estalos de seus passos. Mantiam-se unidas, porém, à espera de um acaso. Livres da eternidade, presas no enquanto. Tornadas irmãs pelo momento.
      E de repente, nem as chaves cantavam mais. O silêncio concentrava-se em frente à décima quinta." É ela", pensou.
      A suposta abriu os olhos e deparou-se com um olhar fixo. Pegou sua mão e a beijou. Apoiou sua testa sobre ela por um instante. Ela suava frio mas decidiu apoiar seus pés naquele chão. Ouviu o riso diabólico de suas irmãs. Olhou para ele, buscando confortar sua dúvida e seu desespero. Ele acariciou sua mão mais uma vez e atirou.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Aspas ocultas.

Deste tempo não há do que falar,
ainda que deixe uma sombra
nos passos que cruzaram imagens.
Mas nem como ponto estaria lá
onde está a

Objeções de cada dia.
Encanta os cantos.
Mas abrasa os brancos.
Desgastando nomes.

domingo, 1 de julho de 2012

A flor do campo.

Corria descalça
com as crianças
nas cinzas dos muros.
Sabia que não
era real.
Sabia que
aquele mundo
era faz-de-conta.
Mas fingia.


Mas ainda assim,
corria entre os campos
de grama urbana.
Entre o cinza e o verde
cresciam flores amarelas.


Ele lutava para tocar sua mão
Ela corria para conquistar-lhe um sorriso.



Os outros sussuravam o futuro.
Das crianças, ela era única que ouvia.
Mas escondia.


Foi no dia em que caiu
que ele segurou sua mão.
Dormiram o mesmo sonho.
E no fim do dia,
a flor do campo.


Os segundos cresceram
e uniram-se em suas veias.
Apenas imagens de uma
tarde de joelho ralado e
mãos dadas restou.


Os rumores eram reais.
Ele lutou o que seus
anos permitiram.
Mas o horizonte
ansiava por seus olhos.


Ela não acenou,
 não sorriu,
e hoje a flor
a chama 
em Campos.

Paredes.

Sim, era previsto.
Sabíamos.
Você sabia.

Assumiu um chão
que te sustentaria,
agora que escorregou
bateu a cara.

Não lhe darei meu pesar
sua hipócrita.
Você viu a luz do trem se aproximando.
Você vendou nossos olhos.
Agora assista o caos.

Se sufoque em seu vômito
sobre o qual tanto canta.
Não sonhou com a grama
molhada e as rosas brancas?

Sim, prometo segurar-te
enquanto ocorre a cerimônia.
E todos os inocentes que
estarão lá.
Todos os que apedrejou
derramarão lâminas em
suas vestes.

Eu esperei demais.
As consequências coincidirão
de novo. E novamente
cortarão seus lábios.
Que os acasos te queimem
enquanto há chance.

Seríamos.

Não deveria talvez,
perder este nada
para olhar o tempo.

Versos e momentos
flutuam o amanhã
que estaria em
minhas mãos.

Já não conto
os mil poemas que
escrevi em
meus pulsos.

Porque a
ausência que
toca em meu
ombro pesa.

Sim é.
Eu sei.
Mas não é o
que seria.

Seria apenas
o que é.
Mas se o
ambos
não renovasse
momentos.

O que fosse,
seria. (E como seria)
E me veria
ali mais uma vez.

As mãos que suplico.
Se soubesse.
Saberia.
E então seria.
Ou iria.

Mas estaria
aqui enquanto.