domingo, 8 de julho de 2012
Pulsos.
Estava sentada em frente ao papel há apenas alguns minutos, mas já o via amarelado. Talvez pela luz do pôr-do-sol em sua janela. Segurava a caneta por um momento, esfregando-a na tentativa de aquecer sua mão, e depois a apoiava sobre a mesa. Repetia sempre os mesmos movimentos, fazendo pequenas pausas para respirar. Seu cabelo já tinha secado, mas sua blusa ainda estava úmida provocando mais um peso em suas costas. Parecia eterno.
Em suas pausas, às vezes, permitia-se perder em um instante, fundindo seu rosto ao vazio de seu peito, evitando a si mesma. As cortinas dançavam o fim da tarde em sua janela permitindo a entrada de um vento frio em seus olhos esquecidos.
Sentiu sua mão arder, o movimento de pegar e largar a caneta queimara sua pele. Com raiva, respirou fundo e apoiou brutalmente a caneta sobre a mesa, junto com sua testa. Rasgou a madeira com suas unhas, e pequenas lasquinhas perfuraram a ponta dos seus dedos. As gotículas de sangue marcaram o título do que viria a ser o papel.
Permitiu-se morrer um pouco enquanto unia forças para fazer nada. Abriu seus olhos no pesadelo de sempre. Mordeu os lábios, e escreveu um parágrafo. Encarou-o por um instante. Estava de acordo. Apoiou a ponta da caneta novamente no papel, mas a tinta escapara de seu sangue. Sentiu o mesmo vazio sem nome.
Olhou para frente, viu um vaso em sua mesa. Uma única flor, já seca. Na tentativa de acariciá-la, uma de suas folhas soltou-se. Pegou-a, fitou-a por um momento. Era repulsiva, sem cor, textura amarga, traços delicados, e tinha a audácia de arrancar-lhe compaixão. Em um único movimento, fechou sua mão. Sentiu os estalos do cadáver se quebrando. Jogou os pedaços pela janela, e viu cada fragmento criar asas.
Massageou seu pescoço, atritando cada cicatriz com seu cansaço. Correu assustada, rumo à qualquer lugar. Sentou na margem. Fechou os olhos.Engoliu seus gritos. Abraçou seus joelhos que abraçavam seu rosto. Estava segura. Os carros não a viam, as luzes não chamavam seu nome. Ninguém esteve com ela, portanto, não sentia falta de ninguém. Abriu os olhos. Estava sentada em frente ao papel.
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