Naquela tarde serena, o vão da tempestade, estava ela a respirar. Tanto tempo, pensava, e cada segundo um corte profundo, de calor próprio. O sangue manchava os lençóis de sua cama, escorrendo lentamente entre seus braços rumo às cicatrizes do invisível. Estava chegando. Podia sentir em cada fio de seu cabelo ruivo. A onda do inverno se aproximava, trazendo consigo os mesmos objetivos para sua tinta. Chorava, ainda, o ontem-amanhã. O decorar do prefácio não bastara para o fim.
Cada gota que escorria de si, uma lâmina de fogo, que queimava olhares arredores cujas dores pesavam em seus lábios. O espelho lhe via, ora vítima, ora assassina, mesmo que engolisse algumas facas para impedir que os cortasse, não era o suficiente para protegê-los de seus olhos.
Da janela, o eco dos ventos de outono. O ar gélido que atravessava sua respiração libertava-se em sua garganta, de modo a não ferir os ouvidos de mais ninguém, cantava o vazio e silenciava o escuro.
Mais um minuto. O tempo árduo insistia em fazer-lhe companhia. Fiel aspecto daquele vulto. A cera fria de sua vela preparava-se para acender sua chama mais uma vez, e impedir que seus olhos se fundissem na noite.
Nos pés da cama, suas vísceras da noite anterior, de aroma tão singelo que mantia-se no esquecimento, porém ardia as palavras que lhe embalavam. Não queria perdê-las pois as amava. Ainda que escondesse os frutos de outras tempos debaixo de sua cama, não conseguia calar-lhes os gritos de sufoco. A náusea a acompanhava constantemente, mas dessa vez decidira antecipar-se e prolongar a visita. Sentia o vazio que vomitava todos os dias comprimir sua luz e atenuar a dúvida da existência da mesma.
Levantou da cama, vestiu sua capa e foi ao encontro do sereno do início. Caminhava em seus pensamentos que pisoteavam o asfalto, que insistia em permanecer-se em água. Seus pés descalços congelavam a estrada, enquanto ele a via se afastar, rumo à lugar nenhum. A onda se aproximava e ele a seguia. Não podia olhar para trás, mas tinha que salvá-lo. No vão dos caminhos, seus olhos estavam no mesmo lugar. Mas ainda eram caminhos paralelos. Qualquer desvio, uma tortura àquela e também a ele. Não queria queimar inocentes com o frio de seu caminho. Não queria se queimar, mas seus pés estavam presos ao gelo.
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